
Araken Britto
de Sousa
- Médico Dotourando da Universidade Federal do Rio Grande do Norte - 2001
RESUMO
Retinopatia
Diabética é a complicação ocular da Diabetes mellitus, de caráter
progressivo, classificada de acordo com a presença de determinadas anormalidades
clinicas verificadas no exame de fundo de olho. É a mais comum causa de
cegueira numa faixa etária de 30 a 69 anos. A lesão da retina é conseqüente à
combinação da oclusão e do extravasamento microvascular, tais ocorrências são
melhores visualizadas pelo fundo de olho contrastado pela AGF
(angiofluoresceína). No momento do diagnóstico do Diabetes mellitus
(Tipo 2) 5% já possuem Retinopatia Diabética. No diabetes Tipo 1, a retinopatia
não ameaça a visão até os cinco primeiros anos após o diagnóstico do diabetes
ou antes da puberdade. Após 15 anos do diabetes, entretento, praticamente todos
os pacientes possuem retinopatia não proliferativa para o Tipo 1 e 2/3 para o
Tipo 2 de diabetes. De forma que o comprometimento da visão se dá de duas
maneiras: neovascularização (principalmente no Tipo 1) e edema de retina
(principalmente no Tipo 2). De acordo com a contribuição da oclusão e do
extravasamento microvascular e de seus achados fundoscópicos conseqüentes, a
Retinopatia Diabética foi classificada em: Não Proliferativa, Proliferativa e
Edema de Mácula (maculopatia). O tratamento para a Retinopatia Diabética
Proliferativa e para o Edema de Mácula é a fotocoagulação a laser.
1. INTRODUÇÃO
O presente
trabalho é uma Monografia apresentada como complemento das atividades
pedagógicas do estágio supervisionado em Medicina Clínica e trata-se de uma
revisão bibliográfica sobre Retinopatia Diabética frente à sua grande
importância, pelo fato de tratar-se da principal complicação ocular do Diabetes
mellitus, doença tão freqüente no Brasil e no mundo e que invalida parte
dos pacientes devido não só à Retinopatia Diabética, como também à Nefropatia e
Neuropatia Diabética, conjunto esse conhecido como Tríade de Hoot.
A Retinopatia
Diabética, doença grave, não por se tratar de um risco de vida, mas pela
redução na qualidade de vida, constitui, de modo geral, uma das principais
causas de cegueira adquirida juntamente com o Trauma Ocular, Glaucoma, Doenças
Maculares e Catarata. Dessa forma, se faz necessário sua prevenção ou quando
não possível, seu diagnóstico precoce e acompanhamento, pelo fato de a
Retinopatia Diabética ser uma doença "silenciosa", que ao apresentar
seus sintomas já se encontrem em grau avançado, piorando assim seu prognóstico.
Estima-se que os
diabéticos têm 10 a 20 vezes mais chances de tornarem-se cegos que as pessoas
não diabéticas devido às alterações na microvascularização, em particular
retiniana (detalhada no tópico 4 Patogênese), sendo que 2% de todos os
diabéticos no mundo são cegos e no Brasil encontrados numa faixa etária
compreendida entre 20 e 65 anos de idade.
No decorrer do
trabalho será elucidada sua prevalência, no Brasil, entre os tipos de Diabetes
mellitus (Tipo 1 e 2); seus fatores de risco, salientando ser essa uma
doença multifatorial; sua patogênese com a explicação plausível para o
surgimento de seus achados fundoscópicos; sua classificação detalhada;
comentários sobre seu diagnóstico, tratamento e seguimento, além de suas
principais complicações.
2.
PREVALÊNCIA
A Diabetes
mellitus (DM) é uma das mais freqüentes doenças no mundo. Estima-se que
7,6% da população brasileira é de diabéticos e dessas pessoas apenas 50% tem o
conhecimento de sua própria enfermidade.
Dos pacientes
com Retinopatia diabética, 40% são portadores de Diabetes mellitus Tipo
1 e 20% são portadores de Diabete mellitus Tipo 2.
A probabilidade
de um paciente diabético vir a ser portador de Retinopatia Diabética irá
depender tanto do seu tipo de DM (Tipo 1 ou Tipo 2), como do tempo de evolução
de sua doença (período decorrido desde o momento do diagnóstico da DM). No caso
de pacientes com até 02 anos de DM (após 02 anos do diagnóstico) a
probabilidade desse paciente ser portador de Retinopatia Diabética nesse
momento é de 2% para DM do Tipo 01 ou 20% para o Tipo 02, situação essa
possivelmente explicada, pelo fato dos sintomas clássicos da DM (poliúria,
polidipsia, polifagia e perda de peso), incidirem de uma forma mais amena na DM
Tipo 02, em relação à do Tipo 01, o que levaria ao seu diagnóstico em uma fase
mais tardia. Desta forma, o paciente dito portador de DM Tipo 02 há dois anos
(diagnosticado há 02 anos), provavelmente já teria Retinopatia Diabética há
alguns anos (aproximadamente 05 anos em média), o que acontece muito
dificilmente na DM Tipo 01. Chamo a atenção ainda para um dado estimado: no
momento do diagnóstico de DM Tipo 02 até 5% das pessoas já são encontradas com
Retinopatia Diabática.
Em pacientes com
um tempo maior de DM, após 15 anos, a incidência da Retinopatia Diabética é bem
destoante com relação ao tipo de DM, sendo encontrado em 98% para DM Tipo 1 e
58% nos portadores de DM Tipo 02, mostrando-nos que a evolução da Retinopatia
Diabética é muito mais "agressiva" nas pessoas portadoras de DM Tipo
01.
Um outro aspecto
é mostrado na tabela 01: as pessoas portadoras de DM Tipo 02 que fazem uso de
insulina devido a uma falência pancreática endógena secundária ao uso de
hipoglicemiantes orais, até 02 anos de DM se assemelham com a incidência de
Retinopatia Diabética nos portadores de DM Tipo 02 sem insulina, pelo fato de a
falência pancreática endógena se dar tardiamente, estando esse paciente ainda
fazendo uso de dieta específica para diabetes ou de um hipoglicemiante oral.
Posteriormente,
após a falência pancreática endógena secundária esse paciente se vê obrigado a
fazer uso de insulina para manter sua glicemia em um nível dentro da faixa de
normalidade, apresentando, dessa forma, uma incidência de Retinopatia Diabética
semelhante ao portador de DM Tipo 1 após 15 anos de doença, o que mostra o
papel da insulina como um fator agravante, em relação à Retinopatia Diabética.
3. FATORES DE
RISCO
A Retinopatia
Diabética se desenvolve como afecção de causa MULTIFATORIAL sendo impossível
definir quais indivíduos desenvolverão tal doença, porém pode se tratar alguns
fatores como uma probabilidade maior de risco, tais como:
• Raça:
encontra-se como fator de risco na DM tipo II, em que, na raça negra há uma
maior incidência que na raça branca e esta, por sua vez, maior que na raça
amarela.
• Idade: a
Retinopatia Diabética é de ocorrência rara antes da puberdade, sendo encontrado
um aumento na freqüência e severidade após os 13 anos de idade, equivalendo à
prevalência da enfermidade nos adultos, devido, muito provavelmente, às
alterações hormonais da puberdade.
• Genética: é
fator comprovado. Foi constatado um acréscimo em 4% na incidência da doença
quando há um parente próximo acometido por Retinopatia Diabética.
• Duração da Diabetes
mellitus: é um dos fatores de risco de maior relevância. A Retinopatia
Diabética como uma complicação da Diabetes mellitus, está em uma relação
diretamente proporcional ao tempo de evolução da doença (Tabela 01). Após 20
anos da diabetes, praticamente todos os pacientes com DM Tipo 1 e mais de 60%
dos pacientes com DM Tipo 2 tem algum grau de retinopatia.
• Controle
metabólico: juntamente com o tempo de evolução da DM são os fatores de risco de
maior peso. É fato comprovadamente reconhecido que pacientes que têm uma
glicemia acima dos níveis de normalidade, principalmente se estão sob uma
hiperglicemia crônica, apresentam um surgimento mais precoce e de forma mais
agressiva que em pessoas que realizam um intenso controle metabólico. O DCCT,
estudo multicêntrico realizado nos EUA e Canadá em 1993, envolvendo 1441
pacientes (com DM Tipo 1 sem retinopatia e outros com Retinopatia Diabética Não
Proliferativa leve a moderado) revelou que o tratamento intensivo com INSULINA
(mais de três picadas subcutâneas/dia ou infusão contínua subcutânea) em
contraposição aos pacientes com terapia convencional (uma a duas picadas
subcutâneas de insulina/dia) reduziu ou impediu o desenvolvimento de
retinopatia em 27%, ou ainda, retardou a progressão da retinopatia, em
pacientes já portadores de Retinopatia Diabética, em 34 a 76%.
• Fatores
oculares: por um mecanismo desconhecido foi notado que pacientes portadores de
miopia e/ou glaucoma apresentavam uma menor prevalência de retinopatia,
funcionando aquelas doenças oculares como FATORES DE PROTEÇÃO contra
Retinopatia Diabética.
• Comorbidades:
em pacientes que apresentavam enfermidades como HAS, nefropatia, anemia e/ou
neuropatia autonômica foi notado um surgimento mais precoce e agressivo da
retinopatia ou agravamento de uma já pré-existente.
• Fatores
diversos: o tabagismo devido a uma diminuição do fluxo sanguíneo e perda da
auto regulação na microcirculação e a gravidez devido a fatores hormonais,
sendo principalmente na DM Tipo 1, provavelmente por coincidir a idade fértil
da mulher com a faixa etária de acometimento desse tipo de diabetes.
Nas pacientes diabéticas
que engravidam sem retinopatia, apenas 10% dessas podem desenvolvê-la.
Pacientes que já possuíam Retinopatia Diabética Não Proliferativa antes da
gravidez progrediram com aumento da hemorragia retiniana, edema macular e
aumento de chance de desenvolver a forma Proliferativa da Retinopatia
Diabética.
Torna-se ainda
mais evidente a gravidez como fator de risco, quando se nota a regressão do
acometimento ocular após o parto. E para os casos de diabetes gestacional,
observou-se o não surgimento da Retinopatia Diabética durante a gestação.
4. PATOGÊNESE
A patogênese da
Retinopatia Diabética é resultado de uma micorangiopatia, assim como todas as
complicações da Diabetes mellitus, sendo explicada por dois mecanismos
na microvasculatura retiniana: oclusão e extravasamento.
O
desenvolvimento da oclusão microvascular se deve principalmente a: espessamento
da membrana basal capilar retiniano; dano à célula endotelial, às hemácias e
plaquetas, levando como conseqüência a uma diminuição do calibre capilar retiniano
e aumento da viscosidade sanguínea. Tal fato se deve basicamente a uma
condição: hiperglicemia prolongada, pois essa dá início a uma cadeia de reação
química chamada de glicosilação não enzimática (Figura 1). Durante uma
hiperglicemia prolongada, a glicose se liga ao grupo amino de proteínas, dando
origem aos produtos intermediários da glicosilação (Bases de Schiff e Produtos
de Amadori) sem a atuação de nenhuma enzima, sendo dessa forma, um processo
reversível com a normalização da glicemia. Em seguida, agora por um mecanismo
enzimático e irreversível, tais produtos intermediários passam a Produtos
Finais da Glicosilação (PFG), que têm a propriedade de aprisionarem a sua
estrutura proteínas não glicosiladas, como por exemplo, o colágeno da membrana
basal dos capilares, que após processo de glicosilação se une à albumina,
levando a um espessamento dessa membrana basal; os PFG se ligam a receptores
celulares diversos presentes nas células endoteliais, monócitos, linfócitos e
macrófagos, levando a um aumento da permeabilidade endotelial e da atividade
procoagulante (Figura 3 e Figura 4); os PFG também se ligam às proteínas
estruturais das hemácias, alterando sua forma e função, fato comprovado por um
exame laboratorial chamado de dosagem da hemoglobina glicosilada (vide tópico 7
Diagnóstico); os PFG ao se ligarem às proteínas livres, também causam
proliferação da matriz extracelular e inativação do óxido nítrico, levando a
uma perda da auto-regulação capilar, inclusive retiniana.
Uma segunda
cadeia de reações químicas também está presente na patogenia da Retinopatia
Diabética, porém agora mais relacionada com o extravasamento microvascular,
chamada de via do poliol (Figura 2), em que a glicose em excesso no sangue é
convertida a sorbitol, pela ação de uma enzima chamada de aldolase redutase. O
sorbitol além de causar lise celular por aumento da osmolaridade é convertido a
mioinisitol, depressor da sódio/potássio ATPase, que provoca como conseqüência
lesão nas células de Schwan e pericitos (célula mesenquimatosa, encontrada ao
redor dos capilares e no caso dos retinianos com capacidade contrátil).
GLICOSILAÇÃO NÃO
ENZIMÁTICA
VIA DO POLIOL

Figura 1:
glicosilação não enzimática. Figura 2: via do poliol.
Figuras
elaboradas pelo autor frente às informações contidas no texto
Figura 3:
eventos que concorrem para a obstrução capilar. Figura elaborada pelo autor
frente às informações contidas no texto
5. ACHADOS
FUNDOSCÓPICOS
5.1
Microaneurismas
Os
microaneurismas são geralmente o primeiro sinal fundoscópico na Retinopatia
Diabética. Normalmente aumentam em número e tamanho com o decorrer da doença;
são originados por uma fragilidade da parede vascular capilar retiniana
conseqüente à destruição dos pericitos pela via do poliol, levando a uma
protrusão e incompetência vascular o que acarreta em "vazamentos",
com hemorragia e edema de retina subseqüentes. Figura 4 e Fundo de olho 1 e 2.
Figura 4: formação de oclusão microvascular e
microaneurismas. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma abordagem sistemática.
Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001
Fundo de Olho 1: oclusões em vasos menos
calibrosos e microaneurismas em fundo de olho contrastado com angiofloresceina.
SHIKANO, S; SHIMIZU, K. Atlas de Fluoresceinografia del Fondo Ocular.
Barcelona: Salvat, 1969
Fundo de olho 2: microaneurismas em fundo de
olho digerido por tripsina
5.2 Exsudatos
duros
Os exsudatos
duros são resultado do extravasamento de plasma através das áreas fragilizadas
por microaneurismas, levando a um depósito (acúmulo) de lipoproteínas presentes
no plasma além de macrófagos repletos de lipídios, dispostos ao redor dos
microaneurismas (Figura 5). Há regressão espontânea em meses ou anos, caso não
haja perpetuação do "vazamento" ou no caso de fotocoagulação a laser,
caso contrário, surgem os depósitos crônicos, levando a uma estrutura chamada
de placa densa, que evolui para uma estrutura permanente chamada de cicatriz
disciforme.
Os exsudatos
duros geralmente deixam seqüelas, diminuição da acuidade visual, devido a
lesões nos fotorreceptores
Figura 5: formação do edema de retina e
exsudato duro a partir de vazamentos de microaneurismas. KANSKI, J.J.
Oftalmologia Clínica: uma abordagem sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001
Fundo de olho 3: anel de exsudato duro.
SHIKANO, S; SHIMIZU, K. Atlas de Fluoresceinografia del Fondo Ocular.
Barcelona: Salvat, 1969.
5.3 Exsudatos
algodonosos
A oclusão nos
capilares retinianos na CFN (Camada de Fibras Nervosas), leva a uma posterior
isquemia e interrupção do fluxo axoplasmático com acúmulo do material
transportado pelos axônios ocasionando um aspecto branco e opaco chamados de
exsudatos moles ou algodonosos (Fundo de olho 4). O desaparecimento dos
exsudatos algodonosos, resultantes de infartos retinianos, levam a observação
de um reflexo luminoso anormal que é o Sinal de Depressão Retiniana, com
seqüelas ausentes ou mínimas
Fundo de olho 4: exsudatos algodonosos e
micro-hemorragias. SHIKANO, S; SHIMIZU, K. Atlas de Fluoresceinografia del
Fondo Ocular. Barcelona: Salvat, 1969.
5.4 Hemorragias
As hemorragias
profundas (puntiforme) são características da Retinopatia Diabética, se as
hemorragias forem apenas na periferia ou principalmente superficiais (em
"chama de vela") suspeita-se de outra etiologia que não DM. Causam
obscurecimento visual quando FOVEAL. São reabsorvidas em 02 a 04 meses com melhora
visual (figura 6 e Fundo de olho 5).
Figura 6: corte de retina. KANSKI, J.J.
Oftalmologia Clínica: uma abordagem sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
Fundo de olho 5: múltiplas hemor-ragias
puntifor-mes, exsudatos duros e edema de mácula. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica:
uma abordagem sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
5.5 Edema
O edema de
retina é a principal causa da diminuição da acuidade visual na Retinopatia
Diabética Não Proliferativa (se o edema é na mácula). Causado pela disfunção da
barreira hemeto-retiniana onde células endoteliais de microaneurismas, nos
capilares e arteríolas, se tornam hiperpermeáveis acarretando em extravasamento
do plasma. O espessamento retiniano focal ou difuso normalmente está associado
a exsudatos duros (Figuras 5 e 7 e Fundo de olho 5).
Figura 7: fisiopatologia do Edema de Retina.
Figura elaborada pelo autor frente às informações contidas no texto.
5.6 IRMA
(Anormalidades Microvasculares Intra-retinianas)
IRMA são
dilatações, tortuosidades e irregularidade no calibre dos capilares retinianos
(Fundo de olho 6).
Fundo
de olho 6: IRMA e Exsudatos Duros. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma
abordagem sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
5.7 Neovascularização
A obstrução e o
extravasamento microvascular retiniano (vide patogenia), leva a perda da auto
regulação dos vasos retinianos, acarretando em uma diminuição do aporte de
oxigênio a esse tecido, promovendo a produção de uma substância chamada de
Endotelina 1 pelo tecido angustiado. Tal produto irá agir nos pericitos e
células musculares lisas dos vasos retinianos, levando a um aumento do tônus
vascular que acarreta em áreas de constricções e dilatações irregulares (IRMA),
além de áreas de isquemia das fibras nervosas (exsudatos algodonosos). Agora
sob hipóxia persistente os pericitos, as células endoteliais e o epitélio
pigmentar da retina irão liberar fatores de crescimento vascular (Fator de
Crescimento de Fibroblato Básico, Fator de Crescimento do Endotélio Vascular e
Fator de Crescimento de Substância Análoga a Insulina), promovendo uma
neovascularização compensatória (Figuras 8 e 9).
Figura 8: fisiopatologia da
neovascularização. Figura elaborada pelo autor frente às informações contidas
no texto
Figura 9: fatores de crescimento levando
à neovascularização. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma abordagem
sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
Os neovasos
originam-se principalmente na cabeça do disco óptico, esses são os NVD
(Neovasos do Disco), pois nessa região não há membrana limitante interna (MLI),
o que facilita o crescimento vascular. Os neovasos podem originar-se ainda ao
longo das arcadas vasculares temporais, são os NVO (Neovasos em outros locais
que não o Disco). Os neovasos se localizam na superfície da retina, podendo em
estágio mais avançado invadir o vítreo, provocando nesse local hemorragias
pré-retinianas ou intravítreas, respectivamente, pelo fato de os neovasos terem
uma propensão à "vazamentos" por possuírem imaturidade de sua parede
vascular.
Os neovasos
formados têm uma constituição semelhante aos vasos retinianos, com endotélio e
pericitos, pois são originados de outros pré-existentes, principalmente de
veias. Juntamente com a proliferação de neovasos há a proliferação de tecido
fibroso, chamada de proliferação fibrovascular. Esse tecido fibroso, originado
do tecido mesenquimal da MLI, tem por finalidade a sustentação dos neovasos, o
que dá um crescimento de aspecto arboriforme em direção ao vítreo (Fundo de
olho 7).

Fundo de olho 7: neovascularização no
disco (NVD) e em outros locais (NVO). KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma
abordagem sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
5.8-Descolamento
de retina
Na Retinopatia
Diabética Proliferativa o descolamento de retina é a principal causa de perda
visual, juntamente com hemorragia vítrea e glaucoma neovascular.
A proliferação
neovascular intravítrea freqüentemente é seguida de hemorragia, sendo que após
a absorção desse sangue depositado na retina, há uma conseqüente tração da
retina em direção ao vítreo, pelo tecido fibroso cicatricial resultante
(figuras 10 e 11 e fundo de olho 8).
Figura 10: fisiopatologia do descolamento
de retina. Figura elaborada pelo autor frente às informações contidas no texto.
Fundo de olho 8: descolamento de retina.
Figura
11: descolamento de retina. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma abordagem
sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
6.
CLASSIFICAÇÃO
A Retinopatia
Diabética (RPD) se divide basicamente em dois grandes tipos: RPD não proliferativa
e RPD proliferativa, pela presença ou não da proliferação fibrovascular (vide
tópico 5.7 Neovascularização) influenciando na severidade, terapêutica e
prognóstico da doença. Esses, por sua vez, subdividem-se de acordo com a
gravidade do quadro. É também enquadrado na classificação da RPD o Edema de
mácula, podendo ser clinicamente significante, ou não.
Dessa forma, a
RPD é classificada em: RPD Não Proliferativa Leve; RPD Não Proliferativa
Moderada; RPD Não Proliferativa Severa; RPD Não Proliferativa Muito Severa; RPD
Proliferativa Precoce; RPD Proliferativa de Alto Risco; Edema Macular diabético
e Edema Macular Clinicamente Significativo (EMCS).
6.1 Retinopatia
Diabética Não Proliferativa
Estão presentes
nesse tipo de RPD os microaneurismas, as hemorragias puntiformes, as IRMA
(Anormalidades Microvascular Intra-Retiniana) e/ou veias em rosário. De acordo
com o aparecimento desses achados ao exame de Fundo de Olho a RPD Não
Proliferativa pode ser dividida em leve, moderada, severa ou muito severa.
6.2 Edema de
Retina
O Edema macular
diabético pode ser do tipo clinicamente significante ou não, de acordo com sua
extensão e/ou de sua proximidade com a mácula.
6.2.1 Edema
Macular
Espessamento
retiniano e/ou exsudatos duros dentro de um raio de 2 diâmetros
papilares (3000mm) do centro da fóvea.
6.2.2 Edema
Macular Clinicamente Significativo
O Edema de
Mácula é classificado como clinicamente significativo quando:
a) Edema
retiniano a 500mm do centro da fóvea. (Fundo de olho 9A).
b) Exsudatos duros a 500mm da fóvea, associado a edema retiniano adjacente, que
pode estar fora do limite de 500mm. (Fundo de olho 9B).
c) Edema de retina com uma área de um disco, a uma distância de 1500mm do
centro da fóvea. (Fundo de olho 9C).

Fundo de olho 9A, 9B e 9C: Tipos de
Edema Macular Clinicamente Significante. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma
abordagem sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001
6.3 Retinopatia Diabética Proliferativa
(RPDP):
A RPDP acomete 5
a 10% de todos os diabéticos. É o estágio mais avançado da doença e está
relacionado com hemorragias vítreas ou pré-retinianas e com o descolamento
tracional da retina. Pode se subdividir em RPDP Precoce ou de Alto Risco
dependendo da severidade da neovascularização, que é dada pela área de
cobertura dos neovasos em proporção ao diâmetro do disco óptico (1500 mm).
6.3.1 RPDP PRECOCE:
Encontramos
nesse tipo de Retinopatia Diabética Proliferativa:
· NVD e NVO;
· Descolamento tracional da retina;
· Hemorragia vítrea e pré-retiniana;
6.3.2 RPDP DE
ALTO RISCO (Fundo de olho 10 e 11)
Encontramos
nesse outro tipo de Retinopatia Diabética Proliferativa:
· NVD (ou
neovasos a 1500 mm do nervo óptico) com uma área maior que ¼ de área do Disco
Óptico;
· NVD associado à HEMORRAGIA vítrea ou pré-retiniana;
· NVO com uma área maior que ½ do Disco Óptico associado à HEMORRAGIA vítrea ou
pré-retiniana

Fundo de olho 10 e 11: RPDP de Alto
Risco. SHIKANO, S; SHIMIZU, K. Atlas de Fluoresceinografia del Fondo Ocular.
Barcelona: Salvat, 1969
7.
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico da
Retinopatia Diabética é fácil e rapidamente realizado por um oftalmologista
através de um exame de Fundo de Olho (FO), após midríase completa. É válido
salientar a grande importância de um diagnóstico na fase inicial da doença,
evitando a progressão para um estágio mais avançado como a Retinopatia
Diabética Proliferativa, por exemplo, modificando a forma de tratamento e
prognóstico da a visão do paciente. Dessa forma, se faz necessário o
acompanhamento rigoroso do diabético por um oftalmologista, cuja freqüência irá
depender do tipo e do tempo de evolução da diabetes e da idade do paciente. A
primeira consulta do paciente diabético ao oftalmologista deve seguir os
seguintes passos, por razões já discutidas anteriormente:
· Idade < 30
anos: FO até 05 anos do diagnóstico de DM;
· Idade > 30 anos: FO no momento do diagnóstico de DM;
· Gestantes: até o 1º trimestre de gravidez.
8. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
8.1 Oclusão da
veia central da retina
O acometimento
ocular nessa enfermidade é unilateral, tendo um início abrupto e apresentando
hemorragias superficiais em todos os quadrantes da retina, principalmente na
periferia.
8.2 Síndrome
ocular isquêmica (doença oclusiva da carótida)
O acometimento
ocular nessa enfermidade também é unilateral, porém, no lado contralateral à
carótida obstruída, apresentando grandes hemorragias por aumento da pressão na
carótida sã.
8.3 Retinopatia
hipertensiva
O acometimento
ocular é bilateral, porém as hemorragias são abundantes e superficiais, em
"chama de vela". Existem estreitamento arteriolar, cruzamentos
arteriovenosos e raros microaneurismas.
9. PREVENÇÃO
A prevenção do
surgimento da Retinopatia Diabética é de inquestionável importância nos
pacientes diabéticos, visto que, com os cuidados citados abaixo, se pode
retardar significativamente o surgimento e/ou a progressão da Retinopatia
Diabética. Sabe-se que o acometimento ocular da diabetes, assim como suas
outras complicações, surgem mais cedo ou mais tarde, dependendo da qualidade de
vida do paciente diabético e dos fatores de risco associados.
• Recomendações gerais:
Dieta para
diabético, exercício físico regular, evitar tabagismo.
• Controle
metabólico:
O exame
"gold standard" para acompanhamento da glicemia do diabético é a
Hemoglobina Glicosilada, resultante da exposição da hemoglobina a níveis
elevados e constantes da glicemia (vide item 4 Patogênese - glicosilação não
enzimática), que reflete o controle glicêmico nos últimos 90 a 120 dias. O
teste é utilizado no controle glicêmico de longos períodos em diabéticos,
especialmente os insulino-dependentes cuja glicemia mostra grande
instabilidade.
Quanto ao tipo
de tratamento (hipoglicemiantes orais ou insulina) foi comprovado que a
Glibenclamida mostrou uma menor evolução na Retinopatia diabética e para
pacientes insulino-dependentes o tratamento intensivo, 03 ou mais picadas
subcutâneas/dia de insulina, apresentou melhores resultados, ou seja,
prolongamento no tempo de surgimento e/ou redução da severidade.
Devemos sempre
atentar para prevenir ou controlar certas enfermidades como: HAS, dislipidemia,
anemia e nefropatia que alteram o curso da RPD, desfavorecendo o prognóstico do
paciente.
Em relação à
gestação deve ser realizado um rígido controle glicêmico e exame oftalmológico
trimestral (lembrando que exames de fundo de olho com angiofluresceína devem
ser evitados) e nos 3 meses pós-parto. Para RPD Não Proliferativa moderada a
grave o exame deve ser mensal e para RPD Proliferativa sem tratamento devem ser
submetidas à panfotocoagulação.
A normalização
rápida da glicemia acelera a progressão da RPD. É indicado que haja um
planejamento da gravidez para que a glicose possa ser normalizada lentamente,
cerca de 6 a 8 meses antes da concepção.
10. TRATAMENTO
O tratamento da
Retinopatia Diabética, já instalada, é realizado através da fotocoagulação a
laser que atua da seguinte maneira:
a) Transformando
o tecido em hipóxia em tecido cicatricial, incapaz de produzir fatores de
crescimento vascular;
b) O calor proporcionado pelo laser leva a uma proliferação do epitélio
pigmentar com a subseqüente renovação, acarretando no desaparecimento do edema
de retina.
c) Diminuição do consumo de oxigênio pela retina em sofrimento por hipóxia,
facilitando as trocas metabólicas com a coróide, já deficiente no diabético.
As principais
indicações da fotocoagulação a laser são:
a) Edema de
mácula, evitando sua progressão para o tipo Clinicamente Significativo,
prevenindo, dessa forma, a perda visual em 50% dos casos;
b) Isquemia e zonas de não perfusão, pelo fato de essas áreas produzirem
fatores de crescimento neovascular;
c) Proliferação fibrovascular, pois após a hemorragia intra-vítrea ocorre
tração vítreo-retiniana e subseqüente descolamento de retina. O laser só tem
boa atuação sobre o componente vascular, dessa forma, se o componente fibroso é
predominante na proliferação vítreo-retiniana, o tratamento deixa de ser o
laser e passa a ser o tratamento cirúrgico, vitrectomia.
O tipo de
fotocoagulação a laser irá variar com grau de acometimento retiniano, podendo
ser:
a)
Focal, incidindo diretamente sobre microaneurismas e micro-hemorragias;
b) Grid (em grade) nas áreas de edema difuso, evitando sua progressão para
clinicamente significativo (Fundo de olho 11);
c) Panfotocoagulação (generalizada), para tratar a neovascularização e edema
macular clinicamente significante já instalado (Figura 12);
Fundo de olho 11: fotocoagulação em grid
em área de edema difuso. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma abordagem
sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
Figura 12: fotocoagulação de toda a
retina poupando-se a mácula. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma abordagem
sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
11. SEGUIMENTO
O seguimento de
um paciente portador de Retinopatia Diabética (RPD), tem fundamental
importância, visto o seu "silencioso" e muitas vezes rápida evolução,
estando sob a influência principalmente do tempo de evolução do DM, fator
imutável, e do controle glicêmico do paciente, muitas vezes difícil de ser
obtido, principalmente naqueles pouco esclarecidos.
Observe abaixo o
seguimento de pacientes de acordo com a severidade da Retinopatia:
a) Retinopatia
Diabética ausente a muito leve: fundo de olho (FO) anual;
b) RPD Não Proliferativa leve a moderada: se sem edema, FO a cada 6 meses; se
com edema de retina, FO a cada 3 a 4 meses e se houver edema de mácula clinicamente
significante, está indicado a panfotocoagulação e FO contratado por
angiofluoresceína (AGF) antes e após o laser.
c) RP Não Proliferativa severa a muito severa: se sem edema de retina, deve-se
realizar FO com AGF a cada 3 meses e para o caso de se confirmar em um desses
exames neovascularização, está indicado a panfotocoagulação. Para os casos de
edema de retina, realiza-se FO com AGF e fotocoagulação focal seguida de
panfotocoagulação.
d) RP Proliferativa: está indicada a Panfotocoagulação.
O tratamento
cirúrgico, VITRECTOMIA, indica-se quando há:
• Hemorragia
vítrea persistente ou recidivante após tratamento com laser.
• Descolamento tracional de retina, vitrectomia associada a endofotocoagulação
(Figura 13).
Figura 13: vitrectomia e
endofotocoagulação. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma abordagem
sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001.
12.
COMPLICAÇÕES
12.1 Hemorragia
vítrea persistente
É causada pelo
sangramento dos neovasos localizados no vítreo.
12.2
Descolamento de retina
É causada pela
retração progressiva do vítreo após sangramento dos neovasos e tração
progressiva das membranas fibrovasculares sobre as áreas de adesão
vítreo-retiniana.
12.3 Membranas
opacas
Tal estrutura
surge na face posterior da hialóide decolada, levando a perda da acuidade
visual.
12.4
Proliferação avançada (burnt-out)
É o aumento
relativo do componente fibroso sobre o componente vascular na proliferação
fibrovascular (Fundo de olho 12);
12.5 Rubeose
iridis
Os fatores de
crescimento vascular produzidos pela retina em hipóxia levam a proliferação de
neovasos na íris (Figura 14);
12.6 Glaucoma
Neovascular
É conseqüente a
rubeose iridis, por obstrução do fluxo do humor aquoso pelos neovasos.
12.7 Atrofia do
globo ocular
É conseqüente
após progressiva retração pelo componente fibrovascular.
Fundo de olho 12: proliferação
burnt-out. KANSKI, J.J. Oftalmologia Clínica: uma abordagem sistemática. Rio de
Janeiro: Rio Méd, 2001
Figura 14: Rubeosis iridis. KANSKI, J.J.
Oftalmologia Clínica: uma abordagem sistemática. Rio de Janeiro: Rio Méd, 2001
13. CONLUSÃO
A Retinopatia
Diabética toma uma grande importância, pelo fato de ser uma das principais
causas de cegueira adquirida, além de ser a principal complicação ocular da Diabetes
mellitus, doença de alta freqüência no Brasil (7,8% da população) e no
mundo;
Tem causa
multifatorial, sendo o tempo de duração da Diabetes mellitus e o
controle metabólico os principais fatores de risco.
A Glicosilação
não enzimática e a Via do poliol explicam a patogênese da Retinopatia Diabética
que é dada pela oclusão e extravasamento microvascular, causas da clínica e dos
achados fundoscópicos (microaneurismas, exsudatos duros, exsudatos algodonosos,
hemorragia retiniana, edema de mácula, IRMA, neovascularização e descolamento
de retina). Os microaneurismas são os primeiros achados fundoscópicos e o edema
de mácula e descolamento de retina são as principais causas de cegueira na
Retinopatia Diabética Não Proliferativa e Proliferativa, respectivamente;
O diagnóstico
precoce, a prevenção (recomendações gerais, controle metabólico, pela HbG,
prevenção de comorbidades e cuidados na gestação) e o seguimento são
importantes para retardar o início ou progressão da Retinopatia Diabética,
levando a um melhor prognóstico;
O tratamento se
dá pela fotocoagulção a laser focal, em grid ou panfotocoagulação, dependendo
do estágio da Retinopatia Diabética;
Das complicações
da Retinopatia Diabética destacamos o descolamento de retina e rubeosis iridis.
14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
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